Apesar da crise e dos despedimentos, há quem arrisque
Empreendedores contra a corrente
27.02.2009 - 09h08
Por Ana Rute Silva
Foram 14 anos de trabalho na Petratex, "uma das melhores empresas têxteis do mundo" para Jorge Silva. Mas há aquelas alturas em que tudo se decide. Ou continuava a fazer o mesmo e a ter os resultados de sempre, ou arriscava e criava a sua própria empresa. "Uma loucura", avisou a famÃlia. Jorge Silva, 36 anos, casado e pai de uma menina não se importou. "Os loucos conseguem", respondeu.A estreia absoluta de Jorge Silva no mundo empresarial deu-se no olho do furacão. Em Novembro os nÃveis de confiança dos consumidores e empresários europeus estavam ao nÃvel mais baixo desde Agosto de 1993, altura em que a economia da União Europeia (UE) também tinha entrado em recessão. Ao contrário do que era esperado, a descida do preço dos combustÃveis e das taxas de juro não deram uma sensação de poder de compra à s famÃlias. O contexto obrigou Jorge Silva a refinar o projecto inicial.
Depois de se ter desvinculado da Petratex, com quem chegou a acordo para receber subsÃdio de desemprego, começou a vender e a alugar barcos. "Percebi que para quem começa do zero ter uma empresa só com este propósito não é fácil", explica. Alterou o plano de negócios que inicialmente tinha submetido ao Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) - que através das Iniciativas Locais de Emprego (ILE) financia até 40 por cento do investimento, não excedendo os 150 mil euros - e criou a Luxury Services.
"Pode haver quebra no consumo mas quem tem dinheiro há-de gastar sempre", diz. A empresa, sedeada em Paços de Ferreira, fornece serviços aos mais endinheirados que vão desde o aluguer de jactos privados, à contratação de um alfaiate. Através de um site na Internet vende para todo o mundo e já tem clientes do Brasil e do Reino Unido, "poucos mas consistentes". "Esta fase é má, comecei num perÃodo de crise, mas nunca me dissuadi. O empresário tem de ter visão", justifica.
O ambiente não é propÃcio a negócios. Em Janeiro, foram constituÃdas 3321 empresas, menos 23,6 por cento face ao perÃodo homólogo de 2008, segundo dados da Informa D&B. O último Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que anualmente identifica a taxa empreendedora de vários paÃses, mostra que os potenciais empresários identificam menos oportunidades e têm maior receio de que o negócio falhe. Ao mesmo tempo, as filas nos centros de emprego engrossam. Só em Janeiro inscreveram-se 70.334 pessoas, mais 27 por cento em comparação com 2008
Jorge Silva manteve o optimismo e juntou 109 mil euros recorrendo a capitais próprios e ao apoio do IEFP. Ainda tentou a banca, mas sem sucesso. "Fui a dois bancos de quem já sou cliente há 18 anos. Disseram-me que era difÃcil. Estão com medo e não emprestam", conta.
O inquérito sobre o mercado de crédito realizado no último trimestre de 2008 pelo Banco de Portugal reflecte esta atitude conservadora da banca. As cinco instituições questionadas admitiram ser mais restritivas nos critérios de concessão de empréstimos à s empresas. O aumento dos custos de financiamento, as restrições de balanço dos bancos e a deterioração dos riscos apercebidos pela banca, fizeram aumentar os nÃveis de exigência.
Onde estão os apoios?
"É um contra-senso", dizem Sério Louro, Márcio Santos, Paulo Marques e Pedro Campos que criaram a Quattro Energy em Janeiro. "Fala-se em empreendedorismo, mas apoios para quem arrisca não os há na realidade. Sem histórico ou garantias pessoais ou de terceiro não há financiamento bancário", criticam. Os quatro sócios de Aveiro deixaram o emprego e o salário certo para criar uma empresa que fornece soluções de poupança energética, nomeadamente equipamentos de aquecimento de águas sanitárias. O plano de negócio foi desenhado à medida da crise, "de forma realista". A banca não ajudou mas os empreendedores, com idades entre os 28 e os 38 anos, viraram-se para as sociedades de capitais de risco e para os Business Angels (investidor privado que apoia negócios em fase de arranque). "Exigiu acima de tudo um grande esforço em termos de organização de ideias e formalização sob a forma de um plano de negócios", dizem, por e-mail. A InovCapital, operadora de capital de risco de referência do Ministério da Economia investiu cem mil euros no projecto, tal como a Beta Capital. Um business angel pôs 35.500 euros e os quatro sócios 62.500 euros.
A crise torna ainda mais árdua a tarefa de angariar capital, mas Francisco Banha, fundador e presidente da Federação Nacional de Associações de Business Angels e lÃder da Gesventure, garante que como investidor não alterou os seus critérios de financiamento. "Se o empreendedor detecta uma necessidade por satisfazer e se tem as condições indicadas deve ir em frente", diz. No entanto, em tempos conturbados e de fraca confiança, é melhor não apostar em negócios demasiado inovadores. Há ideias que "ainda não estão no ponto" e precisam de "ultrapassar a barreira do mercado".
Que não haja ilusões. Não há capital disponÃvel para todos, sobretudo para empresas ainda a começar, com pouca estrutura e experiência. Investidores como Francisco Banha optam por apostar em projectos diversificados e que não precisam de muitos anos para dar frutos. Por outro lado, há negócios que funcionam melhor em tempo de crise. "As empresas são sensÃveis a tudo o que lhes permita poupar nos custos fixos", sugere Armindo Monteiro, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE). O ambiente de aversão ao risco traz outras vantagens. Permite conter o entusiasmo de quem está a lançar-se por conta própria e faz com que as perspectivas de investimento e de resultados financeiros sejam mais comedidas. Como refere Armindo Monteiro, a "inovação é mais económica".
"Também é possÃvel fazer boas compras a preços de saldo", continua o presidente da ANJE. Niels Bosma, director de investigação do GEM, diz mesmo que os recursos tendem a ser mais baratos e, com excepção do crédito, mais disponÃveis. As empresas estão a baixar os preços de tabela, a vender equipamento e até a fazer promoções temporárias do género "pague o que quiser".
Aproveitar a turbulência
Bruno Trindade e Daniel Paes estão a aproveitar tudo o que a crise tem de bom. Para além de se terem juntado a outros dois sócios, cada um com experiências complementares, compraram equipamentos a empresas em dificuldades, conseguindo poupanças de 80 por cento nos preços negociados. A Bzpharma nasceu em Junho do ano passado e o projecto já é um dos finalistas do Prémio do Jovem Empreendedor, que a ANJE vai anunciar em Abril.
O focus do negócio, sedeado em Lisboa, é a comercialização e produção de medicamentos e cosméticos. Os quatro empreendedores conseguiram apoio bancário para juntar cem mil euros. Cerca de 70 por cento é assumido pelos próprios sócios, que também garantiram com fundos próprios o capital social de 50 mil euros. "O crédito está mais difÃcil, mas a banca analisa o perfil do promotor e terá sempre que ter uma garantia. O nosso capital tem mais peso, há uma partilha de risco", diz Bruno Trindade, que assume a pasta financeira da Bzpharma.
"Tudo depende da qualidade do projecto e da confiança transmitida pelos empreendedores. O plano de negócios é muito importante e o facto é que os bancos também precisam de continuar a vender dinheiro", acrescenta Daniel Paes, director de marketing. Nenhum dos quatro empreendedores deixou o trabalho por conta de outrem porque "ainda não é preciso". As reuniões executivas realizam-se aos fins-de-semana e cada um assume uma área diferente. As decisões estratégicas são tomadas por todos.
Ter dinheiro para investir torna tudo mais fácil. E é aqui que a frase "a crise traz oportunidades" - repetida nos últimos tempos até à exaustão - se enquadra na perfeição. Com o poder negocial reforçado pelo capital é mais fácil conseguir obter ganhos.
Investir para depois colher
Cerca de 70 por cento dos empreendedores arriscam colocar capitais próprios no negócio, revela um estudo da Cotec, Associação Empresarial para a Inovação. Mas são poucos os que têm mais do que o capital social necessário para abrir a empresa.
"Temos os cinco mil euros e mais não há", conta Edgar Gomes, director comercial da Farma360, sedeada no Algarve. O restante investimento será feito pelo cliente quando contratar os serviços da empresa, que faz seguimento farmacoterapêutico em residências para idosos e gere tudo o que tem a ver com a distribuição e preparação do medicamento.
A estratégia dos quatro sócios (três são farmacêuticos) é dar um passo de cada vez. A crise ensinou a ter prudência redobrada, mas também impulsionou o arranque definitivo da Farma360. Edgar Gomes ficou desempregado depois de a agência de publicidade onde trabalhava estar a registar quebras sucessivas no volume de negócios.
"O projecto estava criado e a minha situação acabou por me incentivar a agir. Candidatámos a empresa a receber apoios do IEFP", conta. O Centro Regional para a Inovação do Algarve (CRIA), da Universidade do Algarve, ajudou os empreendedores a fazer o plano de negócios e o estudo de viabilidade económica. "Acredito que dentro de dois, três anos, esta será uma empresa de sucesso. É preciso muita paciência e persistência. Se conseguirmos entrar na crise, quando o ambiente der a volta vamos estar muito bem", garante.
Os empreendedores que decidiram ir contra a corrente acreditam que é melhor aprender a gerir no meio de tempestade do que na bonança. E, neste contexto, cada conquista é celebrada como uma boa notÃcia. "TÃnhamos previsto vender zero e em três semanas facturámos sete mil euros", revela Isabel Flores, 40 anos, fundadora da Key4kids que lançou no final do ano passado o primeiro "kit" de aprendizagem de inglês com jogos didácticos. A ideia do negócio foi nascendo ao longo dos anos de experiência como professora, mas só avançou depois de ter conhecido Francisco Banha, o seu primeiro aluno adulto. "As aulas com ele são sempre focadas no vocabulário dos negócios e despertaram-me o bichinho. Enchi-me de coragem e apresentei-lhe um documento em Setembro de 2007. Disse-me que tinha pernas para andar", recorda.
Seguiu-se uma longa fase de preparação: primeiro elaborou o plano de negócios, aperfeiçoou a ideia e um ano depois criou formalmente a empresa. A crise obrigou a diminuir o investimento inicialmente previsto, de cem mil euros para 50 mil euros. Conseguiu 45 mil euros do Programa Finicia e entrou com cinco mil euros de capitais próprios. Agora é gerir um desafio de cada vez.
Armindo Monteiro, o presidente da ANJE, diz que há uma geração inteira de empreendedores pronta a entrar em campo. E mais do que nunca precisa de capital. "Só se olha para as empresas que estão a morrer e não para as que estão a nascer. É preciso olhar para a maternidade", apela.