Lucy Kellaway
28/03/09 00:05
Na semana passada, o jornal "The Guardian" publicou a lista das mil melhores músicas pop escritas até hoje.
Há músicas sobre amor, sexo, desgostos, queixas e protestos, vida e morte. Sobre a vida no escritório, no entanto, a produção musical é escassa, ou melhor, residual. "9 to 5", de Dolly Parton, é a única listada.
Pergunto por que carga de água a vida no escritório não serve de inspiração a músicas pop? Há séries televisivas sobre a vida no escritório, novelas e outras variantes, e até a sétima arte lhe dedica espaço, mas músicas sobre o assunto não. Os administrativos bem podem passar todo o santo dia ligados ao iPod ou a serviços gratuitos de "music stream" em estações de rádio personalizadas, que o invés é mentira. A inspiração nunca flui dos administrativos para os compositores.
Talvez isto aconteça por ser um tema aborrecido, chato, mas a justificação não pode ficar por aqui já que há músicas pop dedicadas a temas tão aborrecidos como dormir e beber chá. Tal como há muitas sobre o tédio, o aborrecimento.
A explicação mais plausível reside no facto de os compositores não terem experiência como administrativos e não sabem o que dizer sobre o assunto. Mas nem isto explica tudo. Freddy Mercury nunca foi um "rapaz pobre que matou um homem" nem se inibiu de cantar "Galileo, Galileo, Figaro - magnífico". Como não o impediu de compor uma das mais famosas e bem conseguidas músicas pop de todos os tempos - "Bohemian Rhapsody".
Decidi aprofundar o assunto e descarreguei para o meu computador um novo serviço de "music stream", o Spotify. Tenho ao meu dispor vários milhões de músicas e, depois de uma análise atenta, pude confirmar o que suspeitava: ninguém compôs uma música sobre folhas de cálculo nem apresentações em PowerPoint. Mas encontrei umas quantas sobre a vida no escritório, suficientes para elaborar uma pequena ‘playlist' que é muito agradável de ouvir.
As duas primeiras músicas são dedicadas aos operários norte-americanos. Ao que parece, a vida dos trabalhadores manuais exerce maior fascínio nos compositores comparando com os trabalhadores não manuais ou de colarinho branco.
Há um punhado delas sobre trabalho árduo, mas as minhas preferidas têm a assinatura de Bruce Springsteen, "Working on the Highway", e de Glen Campbell, "Wichita Lineman". Uma é rude e brutal, a outra mais suave, mas a mensagem é comum: é duro ser operário. Bruce canta "é preciso procurar uma vida melhor", enquanto Glen sussurra que precisa "de umas férias curtas".
A terceira música da minha lista é mais recente e poderia ocupar o primeiro lugar de uma nova categoria - "rock redundante". "Don't You Love Me No More" fala-nos do despedimento e foi composta por Henry Priestman, que editou o primeiro álbum aos 53 anos. Parte da letra é conseguida, "Muitos chefes e poucos Índios/Eu, eu não passo de um vosso lacaio", mas o refrão descamba porque soletrar D-E-S-P-E-D-I-D-O numa canção soa mal e embrulha a língua. Talvez R-E-S-P-E-I-T-O fluísse melhor...
Em quarto e quinto lugar vêm duas músicas cantadas no feminino. Uma já a referi, Dolly Parton com "9 to 5", que fala das manhãs em que bebe "uma chávena de ambição" que vai esmorecendo à medida que o dia avança: "Usam a nossa cabeça, mas nunca nos dão valor/É quanto basta para nos pôr loucos... se deixarmos". Enigmático q.b. Ou quem sabe Dolly não fez o trabalho de casa, isto é, não pesquisou o suficiente sobre o assunto para poder aprofundá-lo. Em relação ao outro tema, "Morning Train", cantado por Sheena Easton, ficamos a saber que o seu mais que tudo "apanha o comboio manhã cedo/Trabalha das nove às cinco/E repete o ritual no regresso", mas ignoramos o que faz no horário de expediente.
A música que ocupa o sexto lugar nunca foi editada, mas ganhou estatuto de culto no YouTube. Dois gestores do Bank of America decidiram pegar no tema "One" dos U2 e reformulá-lo. Revi o vídeo quando estava a escrever esta crónica - recomendo vivamente aos leitores que dêem uma espreitadela - e dei por mim a pensar que, afinal, não tem nada de cómico e tudo de pungente. Uma verdadeira mensagem da "outra vida".
Pergunto-me como pude passar ao lado da primeira vez que vi o vídeo, quando a mensagem é mais do que óbvia: a banca morreu. Devíamos ter percebido que alguma coisa estava mal no instante em que dois homens adultos resolvem subir ao palco e cantar solenemente "Um banco, um acorde, uma consciência, as três partilhamos para nos guindarem a padrões mais elevados".
De regresso ao mundo da pop, em sexto há lugar um tema dos Kaiser Chief, "Oh my God", em que a banda apela a uma maior alienação: "O teu nome vem numa chapa pregada na camisa/Um buraco que se alarga como uma fenda na placa tectónica/Não quero saber, pouco importa/O que quero mesmo é estar longe daqui".
Um sentimento que encontra eco na música "Taking Care of Business", dos Bachman-Turner Overdrive, e sugere alternativa ao pesadelo da vida no escritório: compre uma guitarra em segunda-mão e aposte no auto-emprego. Estas músicas têm em comum a ideia um tanto grosseira de que é mau ter um emprego e de que é mau perdê-lo. Os trabalhadores são o máximo e os patrões umas bestas. Em suma, uma vida miserável e infeliz. Parece que isto é escrito e cantado por quem não conhece a realidade da vida num escritório.
Ao fim de uma pesquisa exaustiva descobri duas músicas que fogem a esta onda de negatividade. "Car Wash" de Rose Royce, que canta a felicidade dos trabalhadores da lavagem automática por verem que "há sempre carros a chegar" e a forma carinhosa como falam do empregador quando dizem que "o chefe não se importa que, de vez em quando, a gente se faça de parvos".
Só descobri uma música que enaltece o trabalho e, curiosamente, também envolve água e lavagens. Chama-se "Cleaning Windows"e é composta por Van Morrison. "Sou dos melhores naquilo que faço/Sou feliz como lavador de vidros". Aplaudo o sentimento, mas confesso-me surpreendida. Limpar janelas é das piores tarefas que conheço porque há sempre uma mancha algures a ameaçar o nosso esforço. Mas tenho esperança que Van Morrison ainda escreva uma música a explicar o segredo.
Exclusivo Financial Times
Tradução de Ana Pina
http://economico.sapo.pt/noticias/ninguem-canta-o-trabalho_6861.html