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Nunca mais votei. Votar para quê? (1 mensagem)

por Céu Neves 04 Abril 2009

O Alentejo foi a primeira região do País a atingir os dois dígitos ao nível da taxa de desempregados. O que é agravado pela eterna falta de alternativas em termos de emprego local. E é difícil avaliar o que é mais dramático. Se a vida de quem trabalhou desde os dez anos, sem direito a férias e que agora se vê na iminência de pedir apoio social. Se a de casais jovens, que já tiveram bons rendimentos e que agora vão buscar às escondidas refeições à Cáritas. E descobrem que 18 pessoas podem trabalhar e viver num contentor, sem quaisquer condições de higiene.

"Nunca mais votei. Andar a votar... para quê?" Maria dos Prazeres, 53 anos, tomou a decisão há cinco anos, quando a Fábrica de Lanifícios de Portalegre encerrou. Tinha, então, 600 operários, mas chegou a laborar com o dobro. Deixou de votar porque viveu 33 anos na fábrica, sempre a acreditar que o futuro estava garantido. E, por futuro, entenda-se um rendimento de 500 euros mensais. Sem direito a bens próprios, férias e jantares ou qualquer outro "luxo". O marido, António Reixa, 59 anos, 46 na Robinson (cortiça), também está desempregado. E o subsídio social que Maria dos Prazeres recebe acaba em Agosto. Depois? "Se calhar... tenho de ir pedir ao Estado. Não tenho 40 anos de descontos e 55 de idade", resigna-se Maria.

A Sociedade Corticeira Robinson vive uma lenta agonia. Declarou insolvência há um ano e o plano de recuperação passou por criar a Robinson S.A, cujas instalações ocupam parte da Johnson Controls (componentes de automóveis) que encerrou há um ano. Esta unidade iria absorver os operários da empresa-mãe, mas estes deixaram de acreditar na promessa três meses depois. Não recebiam salários e desistiram do "acordo" para poderem receber o subsídio de emprego. Sexta-feira terminou o prazo de um ano do plano de recuperação e tudo indicava que seria pedida a falência, mas o tribunal adiou a decisão por 20 dias.

O primeiro e único emprego de Maria dos Prazeres foi na Fábrica de Lanifícios, tinha 15 anos quando começou. "Gostava de tudo, das máquinas, dos colegas, do convívio", conta. António Reixa mal terminou a 4.ª classe, com dez anos, foi trabalhar para as pedreiras dos mármores. Entrou para a Robinson com 13.

Nada do que fizeram e aprenderam conta neste momento. Maria dos Prazeres recebeu 11 mil euros do fundo de garantia salarial, o que deu para substituir a mobília, a "antiga estava toda podre". António Reixa teme que não exista dinheiro para pagar indemnizações. Recebem 850 euros em subsídios, menos 400 do que teriam se trabalhassem. Metade é para pagar uma renda de 250 euros, água, luz e gás e medicamentos.

Maria e António têm dois filhos, de 28 e 25 anos, ambos com histórias de trabalhos precários. O mais novo está a tirar um curso de formação em Évora, o que lhe permitirá concluir o 9.º ano, e o mais velho a substituir uma funcionária num supermercado de Portalegre. O mais novo foi pai aos 17 anos, neta que fica em casa dos avós paternos aos fins-de-semana. A namorada tem um curso superior de turismo e é caixa num supermercado.

Vidas que retratam o Alentejo, região do País com pouca oferta de emprego e a primeira onde o desemprego atinge os dois dígitos, segundo o Instituto Nacional de Estatística, maioritariamente mulheres (12,1% em idade activa estão desempregadas). E onde 43,7% dos trabalhadores por conta de outrem (268 mil ) recebem entre 310 e 600 por euros/mês.

Concelhos pouco populosos e onde parece que o cobertor é sempre curto. A agricultura é cada vez menos uma hipótese de trabalho, há poucos concelhos com parques industriais e a administração pública, nacional e local, acaba por ser a grande empregador das cidades.

O distrito de Portalegre tem 6832 desempregados, 3755 dos quais mulheres. Tem também um parque industrial em Ponte de Sor, onde tem sido mediatizada a situação da Delphi, empresa norte-americana subsidiária da General Motors (a viver de subsídios estatais dos EUA) e que fabrica componentes para automóveis. O seu encerramento foi anunciado para finais de 2008, desfecho adiado devido à conjuntura económica. Há um ano deixou de produzir apoios (motores e suspensões) e portas deslizantes, concentrando-se nos volantes e airbags.

Francisco Godinho, 46 anos, sempre foi um exemplo para a gente da terra. "Trabalha na Delphi!", diziam dele quando passava, o que significava "um bom emprego". Foi assim durante 24 anos. Há um ano viu o seu posto de trabalho extinto. Frequenta acções de formação e faz o que for preciso e deixou de receber o subsídio de trabalho nocturno. Os 180 trabalhadores eventuais não viram os contratos renovados e os 420 efectivos estão concentrados no turno das 08.00 às 16.00. Contam-se os dias à espera de decisões.

"Desde Janeiro, 80% a 90% dos trabalhadores perderam no mínimo 140 euros", contabiliza Francisco Godinho, mas há quem tenha perdido 25% do salário. Agora, levam para casa uma média de 650 euros por mês. E o futuro? Francisco tem um filho de 20 anos com quem insiste para prosseguir os estudos, mas já sem muitos argumentos. "Claro, que é sempre melhor estudar, mas conheço muita gente com um curso superior e que está numa caixa de supermercado!"

"Não se vê futuro. Somos 420 e há trabalho só para 200. Está a complicar-se e não é só aqui. Há uma grande intranquilidade e eu ainda tenho quase 20 anos de trabalho pela frente", diz Francisco Godinho, membro do Sindicato dos Trabalhadores da Química, Farmacêutica, Petróleo e Gás (Sinquifa). É que, muitas vezes, acabam por ser os delegados sindicais a dar a cara. As pessoas têm medo de falar. "Sabe-se lá o que nos pode acontecer... ou quem é que nos poderá negar um emprego!" É a justificação para a imprensa.

É o caso do António (nome fictício), 55 anos, e da mulher, 51. Entraram ambos para a Delphi em 1981, está a fazer 28 anos. "É uma morte anunciada", defende . Por isso, discorda da solução "que os sindicatos acordaram" na tentativa de manter a fábrica. "Havia uma hipótese de acordo e eles davam dois meses de salário por cada ano de trabalho. Assim, arriscamo-nos a não receber indemnização", justifica. Acaba por reconhecer que a solução interessaria ao casal por estarem perto da idade de reforma. A maioria dos operários da Delphi tem mais de 20 anos de serviço.

António tem dois filhos, uma rapariga de 18 anos e um rapaz de 28, este último motorista. Férias? "Fui algumas vezes ao Algarve e uma vez a Badajoz, mas a miúda está a pensar estudar, não há escolas superiores no concelho, e tem-se perdido o poder de compra. É preciso poupar."

Três mil euros reduzidos a zero

Fábio e Sílvia não conseguem calar a revolta. Não dão a cara, por eles e, sobretudo, pelo filho de oito anos e que tem acompanhamento psicológico dada a situação em que se encontra a família. O filho mais novo tem três anos. O casal chegou a ter um rendimento mensal de mais de três mil euros e, agora, depende das refeições da Cáritas de Beja.

Fábio, 27 anos, trabalha desde os 14 e é a primeira vez que está desempregado. É um bom pintor de automóveis, profissão que trocou pela de "técnico de vendas de materiais de oficina", onde ganhava muito mais: sem ordenado-base e ganhando à comissão. "Entregaram-me a pior volta, Baixo Alentejo e Évora. Estava morta e eu levantei-a. Cheguei a fazer 2700 euros por mês", conta. Foi assim durante quase três anos, até que as vendas começaram a baixar, mas os pagamentos à segurança social e às finanças não baixaram. Até ao ponto do vencimento já não dar para pagar os descontos. Falhou o primeiro mês, o segundo... até que decidiu dar baixa da actividade. Deixou de poder passar recibos verdes, ou seja, de trabalhar, em Julho de 2008. E quem tem recibos verdes não tem direito a subsídio de desemprego.

Silvia, 24 anos, a mulher, trabalhava como empregada doméstica. A patroa, alegando também ela dificuldades, foi-lhe reduzindo os dias de trabalho, o que diminuiu drasticamente os 500 euros mensais que recebia. Até não ganhar quase nada. Deixou de trabalhar, sem direito a subsídio de desemprego.

"A nossa sorte é que não nos metemos em avarias. Nunca quisemos grandes casas ou Mercedes. Comprámos uma casa antiga no centro da cidade por 70 mil euros e pedimos mais 15 mil para obras. E temos um carro normal, que também estamos a pagar", conta o Fábio. Mesmo assim, representa 600 euros da prestação da casa, mais 274 do carro, o que dá 874, a que se junta 73 euros do infantário do mais novo. E há dívidas para pagar. E não entra dinheiro há praticamente um ano.

Só recentemente começaram a receber o Rendimento Mínimo de Inserção Social, 562 euros pelo casal, tendo-lhes valido a ajuda da Cáritas de Beja, refeições, pagamentos de água e electricidade. O filho mais velho almoça na escola e levam-lhe o pequeno-almoço. Um destes dias, a refeição foi entregue em casa e foi a mãe que lhe pôs a comida na mochila. "Ficou tão contente... ele já percebeu", comenta a Sílvia.

"Aceito fazer tudo e, por tudo, entenda-se todo o tipo de funções e em todo o lado, desde que sinta que a sua dignidade como ser humano não esteja posta em causa. Como aquela que o casal viveu há bem pouco tempo. Ele respondeu a um anúncio para trabalhar nas obras e o encontro foi marcado para Sete-Rios, em Lisboa. O dinheiro que tinham apenas deu para pagar o gasóleo até à capital. Também "não precisavam de mais", pensavam eles. "Disseram-nos que íamos para Leiria e que tínhamos casa e comida."

Em Marrazes, onde estava o estaleiro da empresa, encontraram um contentor para 18 pessoas, homens de 14 nacionalidades, que dormiam no mesmo espaço e três partilhavam a mesma cama. Sem nenhumas condições de higiene. Como é que o Fábio ali ia viver com a Sílvia. "Viemos embora, a pé. Arranjámos uma ou outra boleia. Levámos 36 horas a chegar e sem comer nada. Não consigo esquecer os olhos da minha mulher, ela que sempre foi habituada ao conforto , a pedir-me: "'Pede comida àquele, pede!', mas como é que eu ia pedir ?" Já em Lisboa, em Alvalade, apanharam uma boleia para Sete-Rios, de um homem que lhes deu 40 euros.

Aquela, não foi a única tentativa fracassada. Um amigo pagou-lhes as viagens para tentarem a sorte em França. "Não consegui mais do que mil euros por mês e ainda tinha de pagar a casa e os infantários das crianças, não dava", diz o Fábio.

Fábio e Sílvia estão juntos há oito anos. Não passam um sem o outro e as dificuldades até têm reforçado a relação. "Um puxa o outro. Quando as coisas estão pior eu digo: 'não desanimes, puxa por mim', às vezes, diz ela: 'puxa por mim'", conta o Fábio.

O pior é que são poucas as alternativas em Beja, não há fábricas, os empregos públicos estão bloqueados e o comércio fecha as portas. O distrito tem 8699 desempregados, dos quais 5066 são mulheres. O casal faz-nos uma visita guiada pelo centro da cidade. É desolador! Logo na Praça da República fecharam o Central Restaurante HenriBar, a drogaria Castilho e uma loja de roupa de criança. Avança-se pelas artérias do centro histórico e a lista não pára de aumentar: mercearias, restaurantes, lojas de decoração e de electrodomésticos, pronto-a-vestir, sapatarias, papelarias, chapelarias e até marcas internacionais, como a Brooklin's e a Alain Manoukian. Estão todos a fechar as portas , abre um ou outro espaço, mas ainda são as ditas lojas de chineses a demonstrar alguma actividade.

Todos se conhecem, é mesmo verdade, e um ou outro atira para o Fábio: "Já foste lá?" "Entregaste aquilo?" O que quer dizer se já contactou um possível empregador, se entregou mais um currículo. Fábio traz vários currículos numa capa transparente, sempre pronto a pedir um emprego. "Estamos inscritos nos centros de emprego. Entreguei currículos em todo o lado", desespera.

A Cáritas de Beja apoiou 4616 pessoas em 2008, mais 32% que no ano anterior e a tendência é para aumentar. Fazem apoio domiciliário a 70 famílias e não podem ultrapassar este número. Já em relação à distribuição de refeições tiveram que duplicar, de 20 para 40. "É uma resposta emergente, temporária e flutuante e que não podemos deixar de dar", justifica Teresa Chaves, a presidente da instituição. São os sem-abrigo que almoçam no refeitório e levam o jantar, são as famílias sem rendimentos que preferem levar a comida para casa, como o Fábio e a Sílvia. "Isto bateu no fundo. Tínhamos um bom rendimento, mas nunca fomos pessoas de fazer grandes férias ou fins-de -semana. Eram as despesas da casa, roupa e comida."

"Este distrito tem um índice de desemprego bastante alto. Não temos indústria e o problema de encerrar uma fábrica e ficarem todos no desemprego. Temos comerciantes, pequenas empresa familiares que têm fechado. São pessoas sem possibilidade de aceder ao subsídio de desemprego ou a outros apoios do Estado. É preocupante", explica Teresa Chaves.

Em Évora, distrito com 7389 desempregados, 3983 dos quais mulheres, o parque industrial e indústrias adjacentes, tem sido uma garantia de emprego. Tem. As duas maiores fábricas, produção de componentes para automóveis e telecomunicações, tremem face à descida das vendas. A Tyco, componentes electromecânicas Lda, está em lay-off, reduzindo de 1610 para 1117 o número de trabalhadores que em funções. Numa primeira leva, em Janeiro, 346 pessoas ficaram em casa e a receber 76% do salário e, na segunda, em Março, foram mais 63.

Os operários da Tyco estão a trabalhar menos um dia por semana e com a redução de 15% do salário, havendo quem tenha metido férias, para manter o rendimento. É o caso de Maria do Carmo Soares, que pôs 12 dias de férias. Tem 48 anos, 29 de casa, dois filhos, um de 26 anos que é mecânico e outro de 20 que está a fazer formação na empresa da mãe. Apesar de todos estes problemas, Maria do Carmo não está preocupada: "Ouço que isto vai fechar desde que vim para aqui, embora eu veja que as coisas estão a ficar pior, mas não é só aqui."

Mesmo ao lado, e ainda fora do novo Parque Industrial de Évora, fica a Kemet, fabricante de componentes para automóveis e para telecomunicações, sendo estes em maioria. Tem cerca de 450 trabalhadoras, que esperam a todo o momento uma lista com o nome dos trabalhadores que irão para lay-off.

João, 33 anos, está na empresa há seis anos, o que coincide com a mudança do Barreiro para Évora. Foi atrás da mulher. "Até à data, só fui prejudicado dois meses, quando tive o horário concentrado. A maioria já está a trabalhar só no turno de dia e não se recebe o subsídio nocturno", conta. Contas feitas, acaba por receber 600 euros mensais, em vez dos anteriores 800. A mulher é contabilista, têm um filho e a prestação da casa para pagar. Não quer revelar o nome e logo se percebe porquê. Um funcionário da empresa avisa-nos que não podemos estar no espaço em redor da empresa e vigia todos o nossos passos, mesmo quando não estamos "em propriedade privada". Aconselhou-nos a falar para a administração, que disse "nada ter a declarar!"

Na despedida, percebe-se melhor o silêncio dos residentes no Alentejo. Sobretudo, quando correm o risco de perder o emprego. Também dizem que "as cunhas" têm muita importância e que se pode pagar caro uma denúncia. E não se pode esquecer o pedido de Fábio. "Mandem-nos o jornal. Não o podemos comprar!"

http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1191732