Mesmo num paÃs com um sistema penal notoriamente brando, o caso de Karl Svensson, o homem que matou um sindicalista a tiro e agora se increveu no curso de medicina, está a causar escândalo.
LuÃs M. Faria
22:16 Sábado, 11 de Abr de 2009
Que qualidades são indispensáveis num médico? Essa questão ganhou recentemente nova acuidade quando foi notÃcia que um assassino tinha conseguido ser admitido no curso de medicina de uma prestigiada universidade sueca.
Na verdade, ele não foi admitido numa, mas em duas. Primeiro no Instituto Karolinska , em Estocolmo, onde o seu passado veio primeiro à luz, e depois na universidade de Uppsala , uma das mais antigas do paÃs.
Há um ano, quando os alunos, professores e administradores de Karolinska souberam que o estudante do primeiro ano Karl Svensson era na realidade Hampus Hellekant, um neo-nazi condenado em 1999 pela morte de um sindicalista, o choque foi geral. Svensson havia cumprido a sua pena (parte dela, pelo menos; seis anos e meio de uma pena de onze) e nada o podia impedir de estudar.
O facto de ele ter omitido a sua história criminal não era obstáculo. As universidades suecas estão proibidas de investigar o passado dos candidatos, e ninguém parecia ter-lhe perguntado o que é que ele fizera durante aqueles seis anos e meio.
Após grande debate público, a universidade conseguiu expulsar Svensson com base no pretexto de que falsificara registos escolares. Mas ele não desistiu. Agora acaba de se saber que foi novamente admitido num curso de medicina de uma universidade de topo, e que mais uma vez ninguém lhe terá perguntado nada. Mais uma vez os seus colegas vêm discutir o assunto, e mais uma vez as opiniões se dividem.
De um lado estão os que acham que mesmo um assassino condenado tem direito à reabilitação plena, o que implica o direito a exercer profissões como a medicina. Quem discorda afirma que Svensson desprestigia a escola, envenena o ambiente, e cria uma situação insustentável.
Os comentários da comunidade médica, na Suécia e noutros paÃses, têm-se inclinado no sentido de achar inadmissÃvel que Svensson se torne médico. Não é só o facto de o princÃcio e dever básico da profissão consistir em salvar vidas. A medicina implica uma relação de confiança. Que confiança pode um paciente ter num médico que sabe ser neo-nazi, e mais do que isso, assassino? E mesmo que não o saiba a respeito de um médico concreto, o facto de haver médicos que são reconhecida e admitidamente assassinos poderá criar uma suspeição geral.
Svensson, pela sua parte, tem-se mantido silencioso. Mas há elementos acessórios no caso, incluindo o misterioso desaparecimento de parte do seu processo, que tornam tudo ainda mais escuro. O assassinato do sindicalista Bjorn Soderberg, qualificado como crime de ódio ("hate crime"), aconteceu porque ele tinha denunciado um outro proeminente neo-nazi que era membro do sindicato dos empregados comerciais.
Soderberg foi baleado na sua própria casa por Svensson e outro homem. Não consta que algum deles tenha dado especiais sinais de arrependimento. Aliás, Soderberg era apenas um de mais de mil nomes numa lista de pessoas a abater.
Numa época em que a profissão médica surge com alguma frequência associada à violência mais sinistra - basta pensar nos dirigentes da Al Qaeda que são médicos, ou nos "facilitadores" de Abu Graib, ou em serial killers como o britânico Harold Shipman - a última coisa de que essa profissão ou o público em geral precisam, dir-se-ia, é de alguém como Karl Svensson Hampus Hellekant.
http://aeiou.expresso.pt/o-assassino-que-queria-ser-medico=f508069