Segunda-Feira, 30 Março de 2009
Em 2008, havia mais de 117 mil portugueses a trabalhar na Suiça, números que não incluíam os trabalhadores temporários, disse ao Mundo Português Margarida Pereira, responsável do sindicato suíço UNIA. Dados oficiais do governo suíço indicam que, em Janeiro deste ano, o desemprego na Suiça atingia seis a sete por cento do total de trabalhadores portugueses naquele país. “Estamos preocupados, é um número considerável”, alertou Margarida Pereira.
“O desemprego está a crescer na Suiça e os trabalhadores portugueses são uma importante comunidade no mercado de trabalho”, explica Margarida Pereira, que alerta ainda para uma situação nova.
Segundo a Secretária sindical para a área de migração do Sindicato Unia, o desemprego no seio da comunidade não é visível apenas nos sectores empregadores tradicionais, como a construção civil e a hotelaria, mas fez-se sentir em área ligadas à exportação, onde o emprego era considerado mais «seguro» e que também acolhem trabalhadores portugueses.
A sindicalista alerta que “o desemprego tem atingido portugueses que trabalham em áreas voltadas para a exportação, como a relojoaria e a metalo-mecânica”. “É uma nova realidade, porque estes não são sectores «tradicionais» em termos de desemprego”, revela acrescentando que a estrutura sindical a que está ligada tem estado em contacto estes trabalhadores “que estão no desemprego pela primeira vez e não sabem como agir e que direito têm”.
“Nota-se que a procuram o sindicato para saberem que direitos têm neste momento e dirigem-se a nós para procurarem uma orientação”, explica.
A procura destes trabalhadores por informações levou o UNIA a elaborar, há cerca de duas semanas, um folheto informativo em várias línguas que orienta os trabalhadores acerca dos seus direitos e das formas de acção em caso de desemprego.
Margarida Pereira cita números revelados pelo governo suíço que indicam que em Janeiro deste ano, havia 128.430 desempregados naquele país, dos quais “seis a sete por cento são portugueses”. Em 2008, ainda segundo os dados oficiais, havia pouco mais de 117 mil cidadãos portugueses a trabalhar na Suiça. Números que não correspondiam à realidade, sublinhou a responsável sindical, pois não incluíam o universo dos trabalhadores temporários, ligados maioritariamente à construção civil e há hotelaria.
E são estes, acrescentou, os portugueses que mais «sofrem» com o desemprego. “Há um número considerável de trabalhadores sazonais, com contratos de curta duração e que trabalham através de agências de trabalho temporário” disse, explicando que quando o contrato termina, estes ficam em situações muito difíceis, já que não têm direito a nenhum subsídio.
Problema global
O desemprego entre os portugueses em sectores até agora considerados «seguros» foi um dos temas do debate organizado pelo Partido Comunista Português (PCP) em Berna, no dia 22 de Março.
“É um problema global que atinge a construção, a restauração, a indústria. Há trabalhadores que estão a ficar numa situação precária”, revelou Manuel Alho, do PCP/Suiça, ao Mundo Português, na sequência do encontro que teve por objectivo “aprofundar o conhecimento sobre os efeitos da crise económica e social na comunidade portuguesa”.
Mas os sectores empregadores tradicionais da comunidade portuguesa ainda são os mais afectados pela crise, sublinhou Manuel Alho, que deu como exemplo na área de Neuchatel, onde os portugueses são os estrangeiro a trabalhar em maior número na construção civil, que diz ser um sector «chave» naquela região.
O dirigente do PCP alertou para o aumento de casos de portugueses que viram agravada a sua situação social e acrescentou que o Governo português deve dar mais informações aos portugueses “que vêm para cá para trabalhos precários”.
“Há situações horríveis”, afirmou o dirigente comunista, que defende uma maior actuação do Governo português através de campanhas de informação na comunicação social para os portugueses que querem emigrar, no sentido de os alertar “para terem cuidado”.
“Em Portugal, há a ideia de que a Suiça é um paraíso de trabalho, mas há aqui empresas de trabalho precário que exploram os trabalhadores, que se sujeitam porque foram enganados em Portugal”, afirmou ao Mundo Português, destacando que “os portugueses são dos imigrantes mais afectados pelo trabalho precário” naquele país.
Demora a reconhecer reformas por invalidez
Manuel Alho alertou ainda para o problema dos reformados por invalidez na Suiça, que tem afectado cada vez mais portugueses.
“A Segurança Social em Portugal não reconhece automaticamente as reformas por invalidez atribuídas pela Suiça” o que, acrescentou, dificulta o processo de obtenção das reformas que os trabalhadores portugueses tenham direito em Portugal pelo tempo de trabalho que cá tenham realizado antes de emigrar.
“Nestes casos, a Segurança Social em Portugal só dá o complemento referente ao tempo de trabalho em Portugal, depois de reconhecer a reforma por invalidez atribuída na Suiça”, explica o responsável comunista, acrescentando que o trabalhador reformado tem que se deslocar a Portugal para fazer os exames, num processo que se prolonga.
“Até lá, não recebe o complemento”, explica, dando como exemplo o caso de um trabalhador português, de cerca de 55 que recebe 1270 francos de uma reforma por invalidez que ainda não viu reconhecida em Portugal. “Ele trabalhou cerca de 15 anos em Portugal, não conseguiu ainda o complemento relativo a esse tempo de trabalho e está a passar dificuldades”, revelou ainda, defendendo uma maior actuação do Governo português na resolução rápida destes casos. Actualmente, residem oficialmente na Suíça cerca de 205 mil portugueses.
A.G.P.
http://www.mundoportugues.org/content/1/4346/suica-seis-por-cento-dos-desempregados-sao-portugueses/