Texto de: Florinda Matos (*)
Assistimos, nos últimos anos, a um conjunto de mudanças estruturais que nos obrigam a repensar a forma de organização da vida profissional. A conciliação entre trabalho e famÃlia é hoje condição para o desenvolvimento económico e social sustentável de um paÃs.
Algumas mudanças, mais significativas, nesta relação entre a vida profissional e a vida familiar, têm a ver com o aumento da participação das mulheres na força de trabalho, a nova distribuição dos papeis dos homens e das mulheres na sociedade, a alteração da relação entre trabalho remunerado e trabalho doméstico, a alteração das estruturas familiares, nomeadamente com famÃlias monoparentais ou famÃlias em que ambos os cônjuges têm carreira profissional, a alteração de valores, o aumento da longevidade e a competitividade.
Actualmente, em muitos sectores de actividade, os horários de trabalho ultrapassam, por vezes, as 60 horas semanais, fazendo desaparecer a fronteira entre a vida profissional e privada e invadindo todos os espaços e tempos da vida de um indivÃduo. Vivemos uma realidade complexa, se por um lado o número de desempregados aumentou drasticamente, muitos dos que estão na vida activa trabalham horas a mais.
É frequente ouvir dizer-se que o dia devia ter 48 horas e que não há tempo para nada. Na verdade, a vida profissional absorve uma grande parte do nosso dia, criando contradições entre a realidade e os modelos de carreira profissional.
O facto de as mulheres, neste momento, formarem uma parte importante da força de trabalho, nomeadamente no mundo ocidental, coloca vários desafios à s polÃticas estatais e organizacionais que ainda funcionam com base na premissa de existência de uma força de trabalho sem responsabilidades familiares. Os modelos de carreiras são, por isso, desadequados e com consequências sociais ainda pouco reconhecidas, mas claramente negativas para o desenvolvimento de uma sociedade equilibrada.
Estão em causa a criação de condições favoráveis ao desenvolvimento saudável das crianças ao nÃvel cognitivo, emocional e psicossocial, a qualidade do cuidado, da atenção, do afecto e do apoio emocional e instrumental a idosos e outros dependentes adultos, o acesso e perspectivas de carreira no mercado de trabalho, o aproveitamento eficaz das capacidades e qualificações das pessoas com exigências familiares, entre outras.
Vivemos numa sociedade que, por um lado, tende a penalizar as mulheres pela diminuição da taxa de natalidade e pelo envelhecimento da população mas, por outro lado, ainda existem situações em que os responsáveis das organizações penalizam as mulheres que dão prioridade à maternidade.
Hoje, a sociedade é inclemente, nomeadamente para a mulher, a quem exige que seja boa esposa, boa mãe, boa dona de casa, profissional competente com uma carreira de sucesso, com tempo para ir ao ginásio e cuidar da imagem.
A competição leva os indivÃduos a demonstrar o seu investimento pessoal no trabalho, pelo aumento de mais horas passadas a trabalhar, o que inclui, muitas vezes, trabalhar à noite e ao fim-de-semana e estar sempre disponÃvel e contactável.
Depois ouvimos tristes notÃcias, como as divulgadas recentemente, pela comunicação social, em que um pai se esqueceu do filho bebé dentro do carro, levando à morte da criança! E perguntamos porquê? Como é possÃvel?
É portanto fundamental que a sociedade reflicta sobre este assunto e sobre os mecanismos facilitadores da conciliação entre a vida profissional e a vida familiar.
Esta conciliação deve hoje ser vista como um dos maiores desafios e uma das prioridades do Estado, das empresas e de todas as organizações. Deve promover-se uma cultura de trabalho e de empresa social e familiarmente responsável, pois só assim podemos construir uma sociedade sustentável.
* Investigadora MRC/ISCTE
Consultora PMEConsult